Temos que separar os bons dos maus empresários

Lembro-me bem. Havia uma greve de motoristas de ônibus em Belo Horizonte e eu, em um taxi, conversava com o motorista a esse respeito. Travamos um pequeno diálogo:

Disse ele: “eles tem que fazer greve mesmo, ganham uma mixaria. Um quase nada”.

Perguntei então quanto eles ganhavam e ele respondeu que eram cerca de mil reais por mês, enquanto ele, no taxi, conseguia, fora a gasolina, entre 2 mil e 2 mil e quinhentos. Passei então a fazer algumas perguntas inquietantes, sobre o que ele ganhava durante as férias, quantas horas trabalhava por dia, quantos dias por semana, se gozava do descanso semanal, se tinha plano de saúde pago por alguém, quem pagava por seu almoço, se ganhava quando ficava doente, quando o carro enguiçava ou parava por qualquer motivo, quem pagava as prestações do carro, trocava os pneus e pagava pelos reparos quando necessário, enfim, tudo o que estava embutido em seu ganho mensal e explicando que nada disso era obrigação dos motoristas de ônibus em greve. Ele, depois de respondidas todas as minhas perguntas, mudou radicalmente de opinião e falou:

“ Esses merdas estão fazendo greve por que? Ganham muito mais do que eu e ficam reclamando que ainda querem mais” ?

Quase todo mundo concorda em que nosso país possui uma legislação trabalhista retrógrada, criada ainda na época de Getúlio Vargas e em quase nada modernizada e que, entre outras coisas, considera como incapaz o empregado, mesmo que ele seja pós doutorado, o que certamente onera em muito as empresas e o custo do trabalhador. O que parecem ser garantias de direitos do trabalhador acabam por diminuir seus ganhos, mas tudo isso entra no custo final do que é produzido. Para que se tenha uma ideia, o custo total do trabalhador para a empresa chega a ser de quase 2,5 vezes o seu salario, dinheiro que sai do caixa da empresa, entra no custo do que ela vende, mas não chega ao bolso do trabalhador. Nosso motorista de taxi, quando confrontado com o custo real, mudou radicalmente de opinião sobre o ganho dos motoristas de ônibus.

Esse ônus excessivo sobre a contratação de pessoas abre um flanco para a atuação de maus empresários, pois quem se dispõe a correr os riscos de não contratar, pagando seus empregados sem registrá-los corretamente, consegue um importante diferencial de preços.

Vamos fazer uma guinada e tratar um pouco do que acontece agora no Brasil. Temos assistindo a importantíssimas e oportuníssimas ações das nossas justiça e polícia federal, no sentido de começar a restabelecer no país as regras da ética e da moral no setor político, assim como na lida entre ele e o setor empresarial seu fornecedor. Se levada a efeito até o final, descobrindo e punindo a todos os culpados, sejam quem sejam eles (e torço muito para isso), teremos restabelecido, ou talvez estabelecido, a competência e a produtividade como diferenciais competitivos em concorrências públicas.

Quero agora provocar uma pequena reflexão, buscando a relação entre uma coisa e outra. O que une as duas situações descritas acima? Seria a atuação dos políticos, classe que nos acostumamos a associar à desonestidade e à busca constante por dinheiro e poder? Por mais que isso fosse verdade, seriam eles capazes de criar esquemas fraudulentos, sem contar com a preciosa ajuda de quem “vence” as concorrências, recebe o dinheiro e repassa a eles a sua fatia? Em minha opinião os maus empresários são os principais responsáveis pelas duas situações.

A desonestidade de maus empresários faz com que a esperteza venha se somar como fator de competitividade, algo muito próximo do que vemos nas descobertas da Operação Lava jato, não é mesmo? E, assim como as fraudes com dinheiro público, o descumprimento das leis trabalhistas afeta a toda a sociedade, não apenas aos envolvidos diretamente.

Pode parecer que uma relação de trabalho dissesse respeito apenas ao trabalhador e seu empregador, visto que ambos concordaram e trabalhar, pagar e receber dessa forma. Seria ótimo se fosse assim (como é nos EUA, economia considerada como uma das mais desenvolvidas e com melhor trato trabalhista em todo o mundo), mas essa teria que ser uma regra para todos, substituindo as atuais.

Um mau empresário, que descumpre as leis, não está apenas dando prejuízos ao estado. Está desequilibrando a balança do mercado e eliminando vários bons empresários, que trabalham corretamente, pois estes não conseguem competir com os preços mais baixos praticados por aqueles e não concordam em também se tornarem foras da lei, para competir de igual para igual. É comum hoje vermos empresas sérias, algumas com muitas décadas de existência, fecharem suas portas por não terem mais condições de competir, visto não concordarem e não atuarem com as mesmas práticas utilizadas por alguns concorrentes. Vence o mau, elimina-se o bom, como aconteceu recentemente, com o empresário que suicidou-se após ter que demitir todos os seus colaboradores.

Se você, como eu, pensa em um prazo mais longo do que o simples agora, elimine de sua vida os maus empresários. Não compre seus produtos, mesmo se mais baratos, não trabalhe em suas empresas, não divulgue seus nomes e marcas. Como dizia meu pai, honestidade é como gravidez: não existe parcialmente. Além disso, quem age desonestamente para vencer uma concorrência, ou para contratar um trabalhador, pode, e provavelmente vai, agir também assim em outras coisas, o que inclui a qualidade do que fabrica, a garantia que oferece, a responsabilidade que tem para com o meio ambiente e tudo o mais.

Lembre-se de que sempre existe uma forma de fazer as coisas pouco pior, cobrando por elas um pouco menos. Quem as compra são suas merecidas vítimas.

Post por contribuição de Sidney Porto – Presidente do Conselho da Gerencial Brasil
http://www.gerencialbrasil.com.br

Coach Luiz Porto

Coach Luiz Porto Autor

Graduado em Administração de Empresas, Pós Graduado em Gestão de Pessoas e Mestre em Comportamento Humano. Formado como Coach na SLAC (Sociedade Latino Americana de Coaching). Atua em Coaching e Gestão de Pessoas há mais de 10 anos e tem passagens por diversas empresas nacionais e multinacionais.

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